Segundo o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, transformar resíduos sólidos em energia é uma das oportunidades mais concretas e ainda pouco exploradas da infraestrutura brasileira. O país produz mais de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública. Grande parte desse volume ainda vai para aterros sem nenhum aproveitamento energético, enquanto países como Alemanha, Suécia e Japão já convertem resíduos em eletricidade, calor e combustível em escala industrial.
Nos próximos parágrafos, você vai entender como essa tecnologia funciona, por que o Brasil avança lentamente nessa direção e quais oportunidades concretas estão sendo desperdiçadas.
Como os resíduos se tornam energia: as principais rotas tecnológicas?
Existem diferentes caminhos para transformar resíduos em energia, e a escolha entre eles depende do tipo de material disponível, do porte da operação e dos objetivos do projeto. As rotas mais consolidadas são a biodigestão anaeróbia, a incineração com recuperação energética e a gaseificação.
A biodigestão é o processo em que microrganismos decompõem matéria orgânica na ausência de oxigênio, gerando biogás, composto majoritariamente por metano. Esse gás pode ser usado para geração de eletricidade, aquecimento ou até purificado e injetado na rede de gás natural. Aterros sanitários já produzem biogás naturalmente, mas a maioria ainda queima esse gás em flares, sem aproveitá-lo como fonte de energia.
A incineração com recuperação energética, conhecida internacionalmente como waste-to-energy, transforma resíduos em vapor para movimentar turbinas geradoras de eletricidade. Já a gaseificação converte resíduos em gás de síntese por meio de altas temperaturas, com menor geração de emissões do que a incineração tradicional. Conforme aponta o engenheiro Odair José Mannrich, cada tecnologia tem suas condicionantes técnicas, ambientais e econômicas, e nenhuma delas funciona bem sem um projeto cuidadosamente dimensionado para a realidade local.

Por que o Brasil avança tão devagar nesse setor?
O potencial brasileiro para geração de energia a partir de resíduos é imenso, mas a implementação esbarra em obstáculos que vão além da tecnologia. O primeiro deles é regulatório. Durante anos, o marco legal brasileiro não oferecia segurança jurídica suficiente para atrair investidores privados para projetos de waste-to-energy. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010, estabeleceu diretrizes importantes, mas a regulamentação específica para aproveitamento energético avançou de forma lenta e fragmentada.
Outro obstáculo é a qualidade dos resíduos. O lixo brasileiro tem alta umidade e baixo poder calorífico, o que reduz a eficiência dos processos de conversão energética. Isso é resultado direto da baixa taxa de separação na fonte: quando resíduos orgânicos se misturam com recicláveis e rejeitos, o potencial de cada fração diminui consideravelmente.
Para o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, a solução começa muito antes da usina. Odair José Mannrich explica que a coleta seletiva eficiente e o tratamento adequado dos resíduos orgânicos são pré-requisitos para que qualquer projeto de geração de energia a partir do lixo funcione com viabilidade técnica e econômica real.
Oportunidades que o Brasil ainda não capturou
Aterros sanitários em operação representam uma oportunidade imediata. Muitos já acumulam volume suficiente de resíduos orgânicos para viabilizar projetos de captação e uso do biogás, com retorno financeiro mensurável e impacto ambiental positivo. Algumas iniciativas já existem, mas ainda são pontuais e concentradas em grandes centros.
O setor agroindustrial também abre uma janela relevante. Resíduos de frigoríficos, laticínios, usinas de açúcar e etanol e granjas têm alto potencial de geração de biogás e biometano, com aplicações diretas na própria cadeia produtiva. Na visão de Odair José Mannrich, a integração entre engenharia ambiental e planejamento energético é o que diferencia projetos que saem do papel daqueles que ficam apenas no estudo de viabilidade.
O lixo como ativo estratégico nos próximos anos
A transição energética global está redefinindo o valor dos resíduos. O que antes era visto apenas como problema de gestão pública começa a ser tratado como ativo estratégico por investidores, municípios e empresas que buscam reduzir emissões e diversificar fontes de energia. O biometano, por exemplo, já desperta interesse crescente como substituto ao gás natural em frotas de transporte e processos industriais.
Conforme destaca o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, o momento atual exige que municípios, empresas e poder público encarem os resíduos com uma lógica diferente: não como custo a ser minimizado, mas como recurso a ser aproveitado. O Brasil tem escala, tem resíduo e tem tecnologia disponível. O que ainda falta é transformar essa equação em projetos concretos, bem estruturados e duradouros.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
