Chegada ao Brasil ainda no período colonial, a chita é um dos tecidos que aproximam Cristiane Ruon dos Santos, colecionadora de objetos antigos, da história da moda brasileira. Ao lado dela, técnicas artesanais como a renda de bilro e o fuxico atravessaram gerações dentro de casas simples e, nas últimas décadas, passaram a ocupar vitrines e coleções. Conhecer a origem de cada uma ajuda a entender o valor que carregam.
Chita, o tecido popular que virou símbolo
A chita é um tecido de algodão de trama simples, estampado com flores grandes e cores vibrantes. Sua origem remete aos tecidos pintados da Índia, que os portugueses comercializavam em larga escala. No Brasil, a produção local tornou o tecido barato e acessível, e ele passou a vestir trabalhadores do campo, forrar colchas e decorar festas populares, sobretudo as juninas.
Por muito tempo, a chita foi associada à pobreza. A partir do fim do século XX, porém, designers de moda e decoração passaram a explorar suas estampas como expressão de identidade nacional. O chitão, versão com flores ainda maiores, tornou-se presença frequente em projetos de interiores e em coleções que valorizam referências regionais.
Renda de bilro, trabalho de paciência
A renda de bilro é feita sobre uma almofada cilíndrica, onde a rendeira fixa um papel perfurado com o desenho, chamado pique, e prende alfinetes que guiam o trabalho. Os fios são enrolados em pequenas peças de madeira, os bilros, cruzados e trançados em movimentos rápidos até formar o padrão. A técnica, que integra o repertório de temas ligados a Cristiane Ruon dos Santos, depende de memória e coordenação, já que uma peça pode envolver dezenas de bilros ao mesmo tempo.
Trazida pelos colonizadores portugueses, a técnica se firmou especialmente no litoral do Nordeste, como no Ceará, e em Santa Catarina, onde se associa à herança açoriana. Na moda, a renda de bilro aparece em golas, punhos, barras de vestidos e peças de enxoval, e uma única toalha pode levar semanas para ficar pronta.

Fuxico, do retalho à peça decorativa
O fuxico nasce de um gesto de aproveitamento. Pequenos círculos de tecido têm a borda franzida com linha e são puxados até formar uma espécie de flor achatada. Unidos lado a lado, os fuxicos compõem colchas, almofadas, bolsas e aplicações em roupas.
Segundo a tradição popular, o nome vem das conversas das mulheres que se reuniam para costurar, já que fuxico também significa mexerico. Para quem, como Cristiane Ruon dos Santos, se interessa por costura e por objetos de outros tempos, a técnica é um exemplo de como o reaproveitamento de retalhos produziu peças que hoje são vistas como artesanato de valor.
Como as técnicas artesanais voltaram à moda brasileira?
O retorno dessas técnicas acompanha uma mudança no consumo. A busca por peças com origem conhecida e feitas à mão levou marcas brasileiras a firmar parcerias com rendeiras e artesãs, incorporando bilro, fuxico e estampas de chita em roupas e acessórios contemporâneos.
A valorização, no entanto, trouxe também imitações. Estampas digitais que reproduzem rendas e fuxicos industrializados, feitos de plástico, simulam o artesanato sem o trabalho manual. A diferença aparece nos detalhes: pequenas irregularidades, fios naturais e acabamentos feitos à mão indicam uma peça autêntica. Para o consumidor, perguntar quem produziu a peça e em que região ajuda a confirmar a origem e valoriza diretamente o trabalho das artesãs.
O que observar em peças artesanais antigas?
Peças antigas de renda de bilro tendem a apresentar fios de algodão ou linho, desenhos com leves variações e sinais de uso, como amarelamento e pequenas rupturas. Em chitas de décadas passadas, as estampas costumam ter cores menos saturadas e desbotamento irregular, resultado de lavagens sucessivas.
A conservação exige cuidado específico. Rendas devem ser guardadas planas ou enroladas, longe da luz direta, e lavadas apenas quando necessário, com produtos neutros. No universo de Cristiane Ruon dos Santos, esses objetos funcionam como registros da vida doméstica brasileira, e preservá-los mantém viva uma parte da história do trabalho feminino no país.
