Uma técnica de reconstrução mamária que utiliza exclusivamente gordura da própria paciente está sendo avaliada como alternativa para mulheres submetidas à mastectomia. O método não recorre a implantes nem aos retalhos tradicionais, nos quais tecidos de outras regiões do corpo são transferidos para formar a mama. A proposta combina a expansão gradual da pele do tórax com sessões de transferência de gordura autóloga.
A abordagem foi estudada por cirurgiões plásticos dos Países Baixos e divulgada pela American Society of Plastic Surgeons em 29 de setembro de 2026. Segundo a entidade, os resultados analisados indicaram elevados níveis de satisfação e baixa taxa de complicações durante o acompanhamento. A publicação está relacionada a um estudo apresentado na edição de outubro de 2026 da revista Plastic and Reconstructive Surgery.
Como funciona a reconstrução mamária com gordura
O procedimento começa com a expansão da pele da região torácica por meio do dispositivo EVE-bra. O equipamento é usado antes das transferências de gordura para criar espaço e preparar a área que receberá o tecido. A gordura é retirada por lipoaspiração de regiões como abdômen, costas, quadris ou coxas e, depois de preparada, é injetada na área da mama reconstruída.
Como a quantidade de gordura incorporada ao tecido pode variar, a reconstrução costuma ser feita em etapas. De acordo com a divulgação da sociedade médica, foram necessárias aproximadamente quatro sessões, na maioria dos casos descritos, para alcançar o resultado desejado. O tratamento completo pode se estender por cerca de um ano, o que deve ser considerado no planejamento da paciente e da equipe responsável.
O uso do dispositivo expansor pode provocar desconfortos durante o processo. Entre os efeitos descritos estão coceira, irritação e formação de bolhas na pele. Esses eventos não significam necessariamente que a técnica seja inadequada, mas reforçam a necessidade de acompanhamento médico regular e de avaliação individual ao longo de cada etapa.
Quais pacientes podem considerar a técnica
A reconstrução mamária pós-mastectomia depende de fatores relacionados à saúde geral, ao tratamento contra o câncer, às condições da pele e à quantidade de tecido adiposo disponível. Também entram na decisão as expectativas da paciente, o tempo disponível para concluir o tratamento e a avaliação da equipe multidisciplinar que acompanha o caso.
Por utilizar gordura da própria pessoa, a técnica pode ser considerada por mulheres que desejam evitar implantes ou que não são candidatas a determinados procedimentos com retalhos microcirúrgicos. No entanto, a existência de uma alternativa não significa que ela seja indicada para todas as pacientes. A seleção deve ser feita por especialistas em cirurgia plástica reconstrutiva e oncologia, considerando riscos, benefícios e possibilidades técnicas.
Diferenças em relação a implantes e retalhos
Os implantes oferecem volume por meio de um dispositivo artificial, enquanto os retalhos microcirúrgicos utilizam pele, gordura e, em alguns casos, músculo e vasos sanguíneos transferidos de outra região do corpo. Já a transferência de gordura autóloga aproveita o tecido da própria paciente, geralmente obtido por lipoaspiração, e busca reconstruir o volume de forma progressiva.
Essa diferença pode representar uma opção para quem não deseja um corpo estranho ou não apresenta condições para uma cirurgia reconstrutiva mais complexa. Por outro lado, a necessidade de várias sessões torna o tratamento mais demorado. Além disso, a disponibilidade de gordura, a resposta do organismo e o resultado estético podem variar de uma paciente para outra.
Resultados ainda devem ser interpretados com cautela
Uma avaliação de acompanhamento de um ano do estudo BREAST-II, registrada no PubMed, analisou a reconstrução mamária total com gordura autóloga associada a um dispositivo de expansão. O trabalho contribui para a discussão sobre qualidade de vida, satisfação com as mamas e bem-estar psicossocial após o tratamento, mas não transforma a técnica em substituta universal das demais opções.
Também existe um ensaio clínico randomizado que comparou a reconstrução com gordura autóloga e implantes, disponível em registro do PubMed. A existência de estudos comparativos e de revisões sobre resultados e complicações ajuda a ampliar a base de evidências, mas a indicação continua dependendo do quadro clínico e das prioridades de cada mulher.
Assim, a transferência de gordura representa mais uma possibilidade no conjunto de técnicas de reconstrução mamária após a mastectomia. A decisão deve ser tomada em consulta, com informações sobre o tempo de tratamento, a possibilidade de novas sessões, os desconfortos do expansor e as alternativas disponíveis. O objetivo é alinhar segurança, recuperação e resultado esperado às necessidades individuais da paciente.
