Nos últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) tem revolucionado diversos setores, e a música não ficou de fora dessa transformação. Cantores de todo o mundo têm se beneficiado dessa tecnologia, especialmente aqueles com agendas de shows extremamente apertadas. A IA, com suas capacidades inovadoras, tem permitido que artistas concluam suas gravações de álbuns e participem de colaborações musicais de forma eficiente, sem precisar estar fisicamente presentes no estúdio. A tecnologia de clonagem de vozes é uma das principais ferramentas utilizadas por músicos, permitindo que eles “gravam” suas músicas mesmo quando estão em turnês ou em outros compromissos.
Recentemente, o cantor Léo Santana exemplificou como a IA pode ser uma grande aliada na produção musical. Devido à sua agenda lotada, o artista teve que recorrer à tecnologia para terminar as gravações de seu álbum “Paggodin”. Utilizando uma empresa especializada na clonagem de vozes, a produção foi capaz de recriar a voz de Santana a partir de áudios enviados por ele, resultando em vocais de estúdio perfeitos, mesmo sem o cantor estar presente fisicamente. Esse tipo de uso da IA está se tornando cada vez mais comum, pois permite que artistas otimizem seu tempo sem comprometer a qualidade de suas produções.
A cantora Pocah também se beneficiou da IA, mais especificamente na música “Venenosa”. Em uma parceria com os MCs GW e Triz, o refrão da canção precisou ser alterado de última hora, mas, devido a um cronograma apertado, Pocah não tinha tempo para gravar os novos versos. Utilizando a tecnologia de inteligência artificial, os produtores conseguiram modificar a música sem que a artista precisasse estar presente no estúdio, permitindo que a faixa fosse finalizada rapidamente e mantivesse sua autenticidade sonora.
A IA não só tem sido uma ferramenta valiosa para artistas, mas também tem gerado fenômenos musicais curiosos. Em 2023, um hit global foi criado utilizando a IA para gerar um falso dueto entre os artistas The Weeknd e Drake. Embora tenha sido removido das plataformas digitais rapidamente, o caso gerou uma enorme repercussão e atingiu milhões de reproduções no TikTok. Além disso, o chileno Mauricio Bustos criou o personagem FlowGPT, um artista híbrido que mistura inteligência humana e artificial, criando músicas originais e imitando vozes de cantores famosos. Suas músicas, como o hit “NostalgIA”, conquistaram o top 20 do Spotify espanhol, mostrando o potencial comercial da música gerada por IA.
No Brasil, a regulamentação do uso de IA na música tem sido discutida de forma séria. Em 2024, durante uma audiência no Senado sobre o Projeto de Lei 2338/2023, que visa estabelecer normas para o uso da inteligência artificial no país, artistas como Marisa Monte e Roberto Frejat expressaram preocupações sobre os impactos da tecnologia. Marisa destacou a importância de uma legislação que proteja os direitos dos criadores humanos e garanta um ambiente justo para os artistas, enquanto Frejat criticou a ideia de uma “autorregulação” nos direitos autorais, ressaltando que a música é um patrimônio cultural brasileiro que não pode ser diluído pela IA.
Apesar dessas preocupações, a IA continua a avançar e a transformar a indústria musical de forma irreversível. Segundo especialistas, a tecnologia tem o potencial de tornar a criação musical mais acessível e até democratizar a produção de música, permitindo que qualquer pessoa, com o auxílio da IA, possa criar músicas de alta qualidade. A diretora global de relações artísticas do YouTube, Vivien Lewit, afirma que, no futuro, os fãs de música poderão se tornar criadores, assim como milhões de pessoas tiram fotos com seus celulares sem a intenção de se tornarem fotógrafos profissionais. A IA está criando novas possibilidades para aqueles que desejam expressar sua criatividade musical.
Porém, muitos profissionais da música ainda se questionam sobre o impacto que a IA terá sobre a profissão. Felipe Vassão, produtor musical, acredita que a IA pode acabar criando músicas repetitivas e sem originalidade, baseadas em fórmulas prontas para viralizar. Ele teme que a busca incessante por resultados comerciais e a ausência de ideias genuínas acabem prejudicando a arte musical, tornando-a cada vez mais previsível. Ele ressalta que a IA apenas recicla o trabalho humano, e, eventualmente, pode não haver mais inovações para a tecnologia imitar.
Enquanto isso, o CEO da plataforma Strm, Fernando Gabriel, acredita que os músicos que souberem incorporar a IA em seu processo criativo serão os que se destacarão no futuro. Ele argumenta que, com a IA, os músicos poderão expandir suas possibilidades criativas, criando músicas com mais eficiência e alcançando um público ainda maior. Ao mesmo tempo, a IA poderá substituir alguns dos profissionais que não conseguirem se adaptar a essa nova realidade, como os músicos de estúdio que antes eram indispensáveis para a gravação de músicas.
A IA, portanto, está moldando um novo cenário para a indústria musical. Enquanto alguns temem que a tecnologia acabe com a música feita por humanos, outros acreditam que ela pode ser uma aliada poderosa para a criatividade e o avanço artístico. A regulamentação adequada e o uso consciente da inteligência artificial serão essenciais para garantir que a música continue a evoluir de forma equilibrada, respeitando os direitos dos artistas e preservando a autenticidade da arte musical no futuro.
Autor: Vasily Egorov