As viagens com propósito espiritual têm atraído cada vez mais jovens, público que pouco participava das romarias até então. Diante desse movimento, Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha de perto a forma como peregrinações centenárias se reinventam para dialogar com uma geração conectada e exigente em relação à experiência oferecida. Dados do Ministério do Turismo apontam que o segmento de turismo religioso movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano no Brasil e reúne aproximadamente 17,7 milhões de viajantes, número que já inclui um contingente crescente de universitários e jovens adultos em busca de sentido e comunidade.
Neste artigo, você vai entender por que as romarias deixaram de ser associadas apenas à terceira idade e como esse público mais jovem tem influenciado a forma como esses roteiros são pensados.
O crescimento do turismo religioso no Brasil
O país reúne mais de 500 festas religiosas cadastradas oficialmente, entre romarias, retiros e celebrações de padroeiros, distribuídas por praticamente todas as regiões. O Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, maior polo de peregrinação da América Latina, recebe mais de 12 milhões de visitantes por ano, enquanto eventos como o Círio de Nazaré e a Romaria do Divino Pai Eterno somam, juntos, milhões de participantes adicionais em poucos dias de celebração. Esses números colocam o turismo religioso entre os segmentos mais relevantes da economia do turismo nacional, ao lado de destinos de sol e praia.
Na leitura de Daugliesi Giacomasi Souza, esse crescimento reflete uma mudança de comportamento que vai além da fé, alcançando também a forma como as pessoas escolhem organizar o tempo livre e o orçamento de viagem. Roteiros que antes se restringiam a grupos de idosos ou famílias tradicionais passam a incluir também estudantes, jovens profissionais e grupos universitários, ampliando o perfil de quem participa das romarias ao longo do ano.
Como as romarias se adaptaram à geração digital?
A presença de aplicativos de rotas, perfis oficiais de santuários nas redes sociais e transmissões ao vivo de missas e procissões tornou as romarias mais acessíveis para um público que planeja viagens a partir do celular. Grupos de pastoral universitária, presentes em peregrinações a Aparecida e a outros santuários, mostram como a experiência religiosa passou a se organizar também em torno de comunidades formadas dentro de universidades e igrejas locais, e não apenas por laços familiares antigos. Conteúdo digital voltado à fé, com linguagem mais próxima da rotina dos jovens, ajuda a aproximar esse público de tradições que antes pareciam distantes do cotidiano urbano.

Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, a tecnologia não substitui a experiência presencial da peregrinação, mas funciona como porta de entrada para quem ainda não havia considerado participar de uma romaria. Vídeos curtos mostrando trechos de caminhada, relatos de peregrinos e bastidores da organização dos eventos despertam curiosidade em quem busca vivências autênticas, diferentes do turismo convencional oferecido em pacotes tradicionais.
Da tradição às novas motivações dos peregrinos jovens
Durante gerações, a romaria esteve associada principalmente ao pagamento de promessas e à transmissão de fé dentro da própria família, com avós conduzindo netos pelos mesmos caminhos percorridos décadas antes. Esse padrão ainda existe e continua sendo o núcleo de boa parte das romarias brasileiras, mas passou a coexistir com motivações adicionais, ligadas à busca por comunidade, pausa da rotina digital e contato com a natureza durante trajetos feitos a pé ou de bicicleta.
De acordo com Daugliesi Giacomasi Souza, romarias que envolvem caminhada por trilhas mais longas atraem especialmente jovens interessados em desafio físico e desconexão temporária das telas, combinando espiritualidade e aventura em uma mesma experiência. Esse formato aproxima a romaria brasileira de peregrinações internacionais consolidadas, como o Caminho de Santiago de Compostela, que também reúne um público jovem crescente em busca de sentido pessoal ao longo do percurso.
Por que viajar em romaria atrai tanto os mais jovens?
Parte da resposta está no custo mais acessível desse tipo de viagem em comparação a outros roteiros turísticos, o que torna a experiência viável mesmo para quem tem orçamento limitado no início da vida adulta. Outra parte está ligada à busca por vínculos genuínos em um momento em que boa parte das relações sociais acontece por meio de telas, o que faz da convivência intensa durante os dias de romaria um contraponto valorizado por esse público.
Sob o entendimento de Daugliesi Giacomasi Souza, romarias bem estruturadas conseguem equilibrar tradição e novidade sem descaracterizar o sentido original da peregrinação. Pontos de apoio para descanso, sinalização clara das rotas e espaços de convivência ao longo do trajeto ajudam a acolher tanto o romeiro que já participa há décadas quanto o jovem que vive essa experiência pela primeira vez.
O crescimento desse público mais jovem indica que as romarias brasileiras devem continuar se adaptando nos próximos anos, sem abandonar o que sustentou sua importância desde o início: a busca por sentido, comunidade e pertencimento coletivo.
